Atualizações no algoritmo ASCRS para doenças da superfície ocular pré-operatórias

Imagine o pré-operatório de um paciente de catarata no ambulatório. Ele senta, descreve sintomas pouco específicos – às vezes fala em ardência, visão borrada intermitente, um desconforto difícil de rotular. O reflexo, claro, é correr pro exame objetivo, tentar já indicar a cirurgia. Mas aí bate aquele incômodo: será que a superfície ocular está realmente estável, ou você tá prestes a operar um olho inflamado, com tearfilm bagunçado e resultado refracional imprevisível? O novo algoritmo da ASCRS para doenças da superfície ocular enfia o dedo nessa ferida: o quanto a avaliação pré-operatória precisa ser rigorosa, especialmente pra quem quer consistência cirúrgica e segurança pro paciente.

O time da ASCRS mergulhou fundo na atualização do algoritmo, e, pela primeira vez, coloca a doença da superfície ocular (DSO) como protagonista no pré-operatório das lentes intraoculares e outras intervenções refrativas. O que mudou não é só detalhe técnico: é a postura diante do paciente. Em vez de confiar apenas em queixas ou na avaliação visual rápida do biomicroscópio, agora o consenso é buscar ativamente sinais subclínicos. Porque a experiência mostra – e a literatura já escancara – que o edema, a irregularidade da lágrima e até mesmo blefarite passada batida sabotam o cálculo da lente e a satisfação no pós-operatório.

Essa virada inclui, por exemplo, reforço no diagnóstico de blefarite crônica, especialmente na infecção por Demodex. Antes, a abordagem era tratar só quando os cílios exibiam escamas evidentes. Agora, o algoritmo preconiza a busca ativa: identificar cilíndricos mesmo discretos e iniciar o tratamento direcionado antes da cirurgia. E a discussão avança até para dor ocular com suspeita de base neuropática – um tema complexo, mas cada vez mais reconhecido como causa de insatisfação pós-operatória. O algoritmo traz recomendações para separar bem quando manipular a superfície e quando considerar estratégias para dor de base central, evitando intervenções desnecessárias que só aumentam o sofrimento.

Novos caminhos para diagnóstico e manejo personalizado

Os avanços em diagnóstico ganharam espaço de destaque. Ferramentas tecnológicas, como aberrometria de superfície e interferometria da lágrima, antes tidas como luxo, passam a figurar como aliadas essenciais no segmento pré-operatório. Porque diante de sintomas pouco específicos – aquela ardência crônica, variação de visão ao longo do dia – esses exames permitem detectar disfunção meibomiana inicial ou instabilidade do filme lacrimal, duas condições que derrubam a acurácia biométrica. O algoritmo sugere, portanto, mudar o fluxo: se existe qualquer suspeita de patologia de superfície ocular, pausar a indicação cirúrgica e focar na reabilitação da superfície primeiro.

Isso tem implicação direta na rotina: tratar blefarite ativa, especialmente por Demodex, ganhou protocolo próprio, com recomendações que vão além de xampu de bebê. O uso direcionado de agentes anti-Demodex, e até mesmo o início de ciclos curtos de anti-inflamatórios, faz parte do preparo pré-operatório quando identificados sinais sugestivos. Ao integrar esse cuidado, o oftalmologista não apenas diminui a chance de resultado refracional imprevisível, mas também diminui queixas de desconforto pós-operatório – uma das principais causas de insatisfação em pacientes de premium IOL.

Outro ponto relevante diz respeito à dor neuropática. O algoritmo reconhece que nem toda dor ocular é sinal de superfície doente: parte significativa pode ter origem no processamento central (dor neuropática pura). Nesses casos, o manejo pré-cirúrgico muda. Em vez de insistir em colírios sem resultado, o caminho recomendado é encaminhar para equipe multidisciplinar, evitar intervenções excessivas e preparar o paciente realisticamente para as expectativas pós-operatórias. Isso preserva tanto a relação médico-paciente quanto a reputação do cirurgião frente a quadros complexos.

A importância de protocolos ativos e fluxos revisados

O que chama atenção é que o algoritmo, agora atualizado, valoriza fluxos objetivos e revisáveis. Protocolos com checklists, avaliações padronizadas e score de gravidade ajudam não só a equipe, mas também o próprio residente ou fellow a não deixar detalhe escapar. O algoritmo sugere incorporar ao cotidiano desde triagem de sintomatologia leve até aplicação rotineira de exames como menisco lacrimal, osmolaridade e identificação de cristas marginais na pálpebra. O objetivo é capturar cedo os pacientes “de risco” e garantir que chegam ao centro cirúrgico apenas os olhos com superfície bem manejada.

Esse rigor, longe de burocratizar o processo, serve pra blindar o resultado cirúrgico. A oftalmologia já vinha migrando pra personalização extrema dos tratamentos: agora, isso inclui a preparação personalizada da superfície ocular. O algoritmo destaca que a pressa em levar pacientes pra cirurgia, sem fechar o ciclo de reabilitação da superfície, está por trás de muitas decepções refracionais e queixas crônicas de desconforto. Por isso, a recomendação é clara: checar, tratar e só então operar. Cada paciente pede um fluxo diferente, e o algoritmo ajuda a sistematizar essas decisões.

Mesmo que a rotina ainda traga pressão por agilidade, especialmente nos ambulatórios de alto volume, o texto da ASCRS orienta não abrir mão do rigor: quem internalizar esse protocolo exibe não só domínio técnico, mas protagonismo na entrega de resultados consistentes. E quem já passou por uma surpresa refracional indesejável após IOL premium sabe que essa blindagem clínica vale cada minuto investido.